A teologia de Thelema postula que toda manifestação existencial é resultante da interação de dois princípios cósmicos: o Continuum Tempo-Espaço infinitamente extenso e todo abrangente e o Princípio de Vida e Sabedoria indivisível, expresso individualmente. A interação
destes dois Princípios gera o Princípio de Consciência, que governa a existência. No Livro da
Lei, os Princípios divinos são personificados por uma trindade de antigas Divindades Egípcias: Nuit, a Deusa do Espaço Infinito; Hadit, a Serpente Alada de Luz; e Ra-Hoor-Khuit
(Hórus), o Senhor Solar do Cosmos com Cabeça de Falcão.

O Sistema teológico thelêmico utiliza as divindades de várias culturas e religiões como
personificações de forças divinas específicas, arquetípicas e cósmicas. A doutrina thelêmica
acredita que todas as diversas religiões da humanidade são fundamentadas em verdades
universais e que o estudo comparado destas religiões é uma disciplina importante para os
thelemitas.

Com relação ao conceito de alma individual, Thelema segue o Hermetismo tradicional
baseando-se na doutrina de que cada pessoa possui uma alma ou Corpo de Luz, que é disposto
em camadas ou compartimentos em torno do corpo físico. Considera-se ainda que cada
indivíduo tem seu próprio Augoeides ou Sagrado Anjo Guardião que tanto pode ser
considerado o Eu Superior, Ser ou Self. Com respeito ao conceito de vida após a morte, a vida
em si é considerada como um continuum, sendo a morte uma parte integral do todo. A vida
mortal tem que morrer para que a vida mortal possa continuar. O Augoeides, entretanto, é
imortal e não está sujeito à vida ou à morte.

Semelhantemente à doutrina budista, o Corpo de Luz é considerado passível de reencarnações
ou re-manifestações materiais, depois da morte do corpo físico. Acredita-se que o Corpo de
Luz evolua em sabedoria, consciência e poder espiritual através dos ciclos reencarnatórios
daqueles indivíduos que dedicam suas vidas ao progresso espiritual a ponto de seu destino
após a morte ser, em última instância, determinado por sua Vontade.

Thelema incorpora a idéia da evolução cíclica da Consciência Cultural bem como a da
Consciência Pessoal. Considera-se que a História se divide numa série de Aeons (Eras), cada
qual com seu conceito dominante de divindade e sua própria fórmula de redenção e de
avanço. O Aeon atual é chamado de Aeon de Hórus. O Aeon anterior foi o de Osíris, e o
anterior a esse foi o Aeon de Ísis. Considera-se que o Aeon Neolítico de Ísis foi regido pela
idéia maternal de divindade e sua fórmula incluiu a devoção à Mãe-Terra em troca da nutrição
e proteção que Ela proporcionou. Considera-se que o Aeon Clássico Medieval de Osíris tenha
sido regido pelo Princípio Paterno e sua fórmula foi aquela do auto-sacrifício e submissão ao
Deus-Pai. Considera-se que o Aeon Moderno de Hórus seja regido pelo Princípio do Filho, o
indivíduo soberano, e sua fórmula é a de crescimento, em consciência e amor, direcionados à
auto-realização.

Conforme a doutrina thelemica, a expressão da Lei Divina no Aeon de Hórus é Faz o que tu
queres há de ser tudo da Lei. Esta Lei de Thelema, como é chamada, não deve ser
interpretada como ceder a todo capricho que se apresente, mas sim como um mandado
divino para descobrir a sua Verdadeira Vontade ou verdadeiro propósito na vida (o
dharma), e para realizá-lo, permitindo que os outros façam o mesmo em sua forma única e
pessoal. O que define um thelemita é a aceitação da Lei de Thelema e a descoberta e conquista
da Verdadeira Vontade é sua preocupação fundamental. Alcançar o Entendimento e
Conversação com o Sagrado Anjo Guardião é uma parte essencial deste processo. As práticas e
métodos a serem utilizados neste processo são variados e numerosos e se reúnem sob o título
geral de Magick (Magia).

Nem todo thelemita utiliza todas as práticas disponíveis e há um espaço considerável para que cada um escolha aquelas práticas que são adequadas a suas necessidades individuais.

Algumas destas práticas são idênticas ou semelhantes a outras difundidas por muitas das
grandes religiões do passado e do presente, tais como orações, meditações, estudos de textos
religiosos (tanto os relativos à Thelema quanto os de outras religiões, cantos, rituais
simbólicos e iniciáticos, exercícios devocionais, autodisciplina etc.). Entretanto, algumas de
nossas práticas tem sido tradicionalmente associadas com o que tem sido chamado de
Ocultismo, isto é, Astrologia, adivinhação, Tarot, Yoga, Alquimia Tântrica e conversação com
anjos ou espíritos, todas consideradas pelos thelemitas como meios potencialmente eficazes
para a obtenção de uma perspectiva correta de si mesmos e de seu lugar no universo,
através de trabalhos harmoniosos e evolutivos relacionados a estas práticas.

Na visão de Thelema, qualquer ação que não seja direcionada para a descoberta e
conquista da Verdadeira Vontade é considerada magia negra. Nesta categoria se incluem
quaisquer atos que interfiram com o direito que os outros indivíduos têm de
descobrirem e realizarem sua Verdadeira Vontade. A doutrina thelêmica sustenta que a
desarmonia e o desequilíbrio criados por tais ações acabam gerando uma resposta
compensatória e equilibrada do universo, uma doutrina semelhante à concepção oriental do
karma. Thelema não tem um paralelo direto com o conceito judaico-cristão de diabo ou de
Satanás; entretanto, uma pseudo-personificação da confusão, distração, ilusão e ignorância
egoística é conhecida pelo nome de Choronzon (pronuncia-se córonzon).

De: Fernando Liguori