(LIVRO ZERO +18) Capítulo 41 – O homem amarelo do morro.

Como esperado do Rio de Janeiro era um final de tarde quente, onde pessoas iam e vinham sem camisa e usando o mínimo de roupa possível, shorts que mais pareciam calcinhas chamavam a atenção naquele bairro onde motos iam e vinham sempre com dois inúteis vestindo o uniforme padrão de seu trabalho, “blusa nenhuma e sem capacete”. Lugar horroroso para se estar num sábado à tarde, mas era ali que Hannow ia encontrar com a não tão misteriosa pessoa que o “telefonara” mais cedo.

Após algumas ladeiras e escadaria e becos que nenhum engenheiro saberia explicar como existem, Hannow se encontra num terreno vazio que parece servir de campinho de futebol para os moradores dali, apesar de ser um ambiente desagradável e sujo já era tão alto naquele morro que a vista “dali de cima” era realmente espetacular, não que Hannow tenha sequer reparado nela, mas ela existia ali, talvez como a lembrança de que existe uma cidade bonita, porém longe, aquela que Hannow também conhecia de perto, ou melhor, por dentro e sabia que era tão podre e corrupta quanto aquele morro no qual se encontrava… Ele estava cercado de imundice, e isso sim ele reparou.

Ao fundo do “campinho” havia uma pequena casa, muito mal-acabada, sem reboco nas paredes e com janelas e portas tão mal colocadas que provavelmente não serviam para impedir que alguém entrasse, ou saísse, provavelmente serviam para tapar o sol, até porque nos restos de vidro que elas tinham via-se pedaços de jornal colados do lado de dentro, e sobre a casa no telhado feito com telhas de amianto, pretas e mofadas e bem destruídas, vários pedaços de lona cobriam o que deveriam ser buracos na “estrutura”.

Hannow para em frente à “porta”, acende um cigarro como quem está fazendo hora pra iniciar alguma tarefa, observa o grande volume de sacos pretos e o insuportável fedor de chorume que vem daquele monte, solta uma grande nuvem de fumaça, cospe de lado e pensando “Vamos começar essa merda.” Dá três batidas na “porta”. Lá de dentro ouve-se um “pode ir entrando”, numa voz masculina, mas nem tanto, com um forte sotaque nordestino, provavelmente do Ceará, e apesar da voz não ser tão grossa, parecia um tanto imponente com sua entonação.

Ao entrar Hannow percebe que o ambiente dentro da casa não é muito melhor que seu exterior, os jornais colados nos vidros da janela, velhos e amarelados dão um tom à iluminação que seria um sépia, mas pela sujeira chamar aquilo de sépia seria um exagero, a casa parecia ter 3 pequenos cômodos, sendo um quarto, uma cozinha e um banheiro, que estranhamente não tinha porta, mas uma cortina imunda e semitransparente, já a cozinha era separada por um portal, mas sem porta ou cortina, da sala podia-se observar a casa inteira sem problemas. Na cozinha haviam um fogão que parecia ter sido incendiado umas 10 vezes, um pia lotada de embalagens velhas de quentinha que no momento serviam de comida para moscas e larvas, e um basculante, também coberto por jornal, mas em seu batente algumas velas de 7 dias e algumas imagens do que parecia ser Nossa Senhora.

Na sala Havia um sofá de 3 lugares, bem destruído, provavelmente resgatado de algum lixão, um tapete muito manchado de marrom, ou vermelho, não tinha como definir por causa da iluminação, e o que parecia ser uma cama de solteiro com um mosquiteiro feito de lona preta e grossa que cobria a cama em sua integridade.

– Eu sabia que você viria. – Disse o homem de sotaque nordestino, um cara baixo deveria ter seus 1,69 de altura, o formato da cabeça achatada era exageradamente chamativo, como se ele além de ter herdado traços nordestinos tivesse tido a cabeça marretada algumas vezes, seu rosto era bem tosco, como se alguém tivesse tentado encher uma bola de futebol com cimento mas não colocou o suficiente, era realmente um rosto desagradável.

– Não é sempre que um merda como você se dá ao trabalho de usar uma conexão espiritual pra estragar o meu happy hour, e como pensei que você tinha morrido desde a última vez que soube de você, vim aqui pra ter certeza que tu não era mais uma merda de fantasma indo encher o saco. – Diz Hannow enquanto acende outro cigarro e observando a tal cama esquisita da sala do homem feio. Porém é interrompido pelo mesmo.

– Ô Hannow, não pode fumar aqui dentro não, tu sabe. – Diz o feioso apontado as imagens no batente do basculante.

– Também diziam quem ninguém sobreviveria se fosse virado ao avesso, e você está aqui, não está? – Diz Hannow enquanto a fumaça cria colunas de luz ao passar pelas frestas do telhado da casa.

O cara feio move os lábios inferiores pra cima como quem quer fazer cara feira para Hannow, mas é visível que é uma tarefa impossível para aquele sujeito, então como quem desconversa, e aceitando a situação, ele começa:

– Sabe Hannow, tenho uma coisa pra te mostrar, e tenho certeza que vai gostar. – Diz o feioso indo em direção à cama coberta. – Mas aviso logo que só te chamei porque ele me mostrou como, e parece que algo vai dar merda, então quero saber se é só contigo ou se vai ser como da última vez.

Hannow, apaga o cigarro no tapete, o que não faz muita diferença no seu visual, e sem muita paciência pra papo ele diz.

– Descobre logo essa merda, Copperfield.

O cara feio retira a lona preta que estava suspensa sobre a cama, como que fazendo uma barra, e a cena abaixo dela realmente deveria ficar coberta. Parecia ser uma mulher, mas não podia-se ter muita certeza pois apesar de ter um seio a genitália não estava mais lá, faltavam-lhe parte de um dos braços e suas duas pernas estavam totalmente quebradas, um dos olhos estava branco e o outro bem vermelho, a cabeça era raspada e cheia de corte profundos, o sangue ao redor do corpo já estava seco e as feridas ou estavam porcamente costuradas ou queimadas.

Hannow inclina o corpo em direção àquela coisa deitada, solta a fumaça e calmamente pergunta.

– Ele ainda tá aí?

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