Uma tarde ensolarada, o céu permanecia azul com poucas nuvens, estranho não ver nenhum pássaro voando, estranho não poder erguer o corpo para ver melhor, mais estranho ainda eram aquelas pessoas gritando ao seu redor, saber o que elas gritavam era o de menos, aquilo era um sonho só podia ser um sonho e aquelas pessoas não podiam ser reais… Mas a dor era real o suficiente para fazer suas pernas doerem e seus olhos lacrimejarem, sair dali parecia o melhor a fazer mas seu corpo não se movia, ao redor aqueles homens grandes fedorentos e encapuzados seguravam seus braços e pernas, o que diabos seria aquilo? Só podia ser um sonho, mas por que ele não acordava? Antes que ele pudesse criar respostas em sua mente ele pôde ver o enorme machado pendendo em direção aos seus joelhos… Se aquilo era um sonho aquela dor toda não deveria estar ali, ela era bem real, era bem física, e o pior, incontrolável. Os gritos agora se tornaram nítidos, eram chingamentos, maus agouros dentre outras coisas desagradáveis, a dor não ensurdecia nem cegava, só tornava tudo mais real e isso era desesperador, mais uma vez o machado pendia, dessa vez em direção ao abdômen, e dessa vez tudo escureceu, dessa vez não houve dor, apenas o nada, apenas o acordar…

– Cara acorda ai. – Dizia o homem baixo e de cabeça raspada sacudindo o ombro de Hannow.

Num misto de alívio e susto Hannow desperta de seu “sonho”, se senta na cama e fita bem suas pernas, ele não diz mas não pode senti-las e está preocupado em por quanto tempo elas ficarão assim, mas mesmo assim prossegue com um ar cansado.

– Obrigado por vir, Amigo. Mas não precisa se preocupar, é só a ordem das coisas funcionando…

– Como assim? – Diz o amigo de Hannow com uma cara de interessado.

– Simples, você tira uma lembrança da sua cabeça o universo logo arruma alguma outra pra botar no lugar, mesmo que não seja dessa encarnação… e pode ter certeza ás vezes o universo é um grande filho da puta sarcástico.

O amigo de Hannow faz uma cara de quem entende meia resposta e olha ao redor, o quarto de Hannow está destruído, com várias manchas de sangue e cacos de espelhos e vidro pelo chão, parecido com um cenário de vandalismo, passando a mão na boca e logo depois coçando a cabeça ele pergunta.

– Decoração nova?

Esboçando um risinho forçado, seguido por uma leve tossida Hannow estende o braço pegando uma garrafa amarronzada no chão, dá uma olhada ao redor e acha um isqueiro e pergunta.

– Trouxe o meu cigarro? Diz que trouxe ou você vai ficar pior que esse quarto.

O baixinho tira do bolso um maço de cigarros lacrado e dá a Hannow, e ainda olhando ao redor continua:

– Cara isso ainda vai te matar.

– Jura? – Diz Hannow acendendo um cigarro exibindo os dedos sujos de sangue seco. – Esse é o menor dos meus problemas.

– Sério cara, o que aconteceu no teu quarto, sei que é chato perguntar, mas parece que você deu uma festa e chamou o klu klux klan e a torcida do Flamengo. – Diz o baixinho sorrindo.

– Você acreditaria se eu te disser que eu esqueci?

– Hum… não. – Diz o baixinho fazendo cara de confuso.

– Então não me pergunte mais sobre isso. – Diz Hannow levantando e indo em direção ao banheiro.

O dia estava quente e ensolarado, as ruas e calçadas movimentadas, o barulho chegava a incomodar, e os dois seguem sem trocar muitas palavras, Hannow ao lado do baixinho que parece esperar que a figura ao seu lado diga algo para quebrar o gelo, porém esse silêncio é interrompido por um incômodo ALELUIA vindo do centro de uma praça.

– Temei a Deus, homens de fé, e fiquem longe de satanás e das seitas de espiritismo… – Dizia um homem negro vestindo um terno velho e mal cortado enquanto sacudia uma bíblia em estado deprimente com uma das mãos, com a outra apontada o dedo indicador ao céu e continuava.

– E vos digo em nome do Senhor, que atire a primeira pedra quem não tem um pecado sequer… Nesse momento o “discurso” foi interrompido por um projétil que atinge a cabeça do negro bem na têmpora, parecia uma pedra portuguesa não parecia pesar muitos mas suas bordas eram pontiagudas e cortantes, que o faz cair desacordado ao chão. A multidão de velhos, velhas e jovens com cara de abilolados correm em direção ao, agora nocauteado, palestrante enquanto outros olham ao redor tentando entender o que aconteceu. Ao longe o gordinho que acompanhava Hannow estaca no chão fazendo a mesma cara de surpresa que os demais, porém ao olhar ao redor percebe Hannow batendo as palmas das mãos como quem tira poeira delas e em seu rosto um sorriso desdenhoso estampado ele diz:

– Quase acertei no olho, a noite de ontem deve ter afetado a minha mira. – Diz ele pegando algo no bolso.

– Por que você fez isso?? – Pergunta o gordinho a Hannow indignado.

– Simples, não gosto de gente sem originalidade e sem talento, aquele discurso eu já ouvi milhões de vezes e te garanto que a interpretação dele não foi das melhores, e tenha certeza que ele também não escreveu aquilo… E bem ou mal, ele pediu. – Diz sereno Hannow enquanto acende um cigarro.

– Eu sei disso, todo mundo sabe que não foi ele quem escreveu aquilo, foi Jesus, ele tava transmitindo a palavra de Deus… – Retruca o gordinho tentando argumentar.

– Deus? Pensei que você já tivesse percebido que o Deus daquele cara não existe, ou se existe ta muito ocupado tentando salvar a África. – Hannow segue seu caminho enquanto fala.

– Morto, por que você conclui isso? O homem pode ter sua fé, não? Deus pode salvar?

– Cara, te digo uma coisa, se o Deus daquele cara não conseguiu segurar aquela pedra… Você não deve esperar muita coisa quando tiver um risco REAL na sua frente.

– Cara você tem uma visão meio deturpada das coisas hehe, mas quanto a parte da originalidade, pensa bem, eu sou seu discípulo, logo vou repetir muitas coisas que você fez, isso não é nada original, não era pra você não gostar de mim?

Hannow solta uma longa baforada e sem parar a caminhada continua:

– Pensa bem, rapaz, você é meu discípulo e ainda ta vivo, isso por si só já é bem original… – Ele pára em frente a um casarão colonial incrustado entre dois prédios comerciais, o estado do local era de completo abandono e desleixo, e termina.

– E quem disse que eu gosto de você?

Hannow abre as largas portas fazendo um rangido seco arrepiar suas costas, a escada é de madeira, mal acabada e gasta, as paredes precariamente pintadas, não deveriam ser mais que uns 20 degraus e ao topo uma sala que mal se pode ver lá debaixo, mas uma coisa é óbvia, a luz em seu interior é vermelha e bruxelante.