O quarto permaneceu escuro, porém não uma escuridão normal, é densa quase palpável, um sentimento de tristeza e medo invade o coração de Hannow, ele sabe que aqueles sentimentos não são dele, e sabe bem como lidar com isso, ele precisa apenas vê-la, fitá-la uma vez para que isso tudo termine, seus olhos procuram naquele véu negro e frio, mas nada encontram, seus momentos de observação duram pouco quando uma pontada forte em seu calcanhar o faz urrar de dor, “cacos de vidro” ele pensa, e ao olhar pros seus pés percebe que não estava totalmente errado, bolos enormes de vermes rastejando por pontudos cacos de vidro negros cobrem seus pés.

– Truque novo, amor?- Balbucia Hannow ainda procurando ao redor.

– Só uma amostra do lugar onde você me colocou, meu bem, só que lá não cobriam
apenas meus pés, mas meu corpo inteiro por dentro e por fora, trouxe essa pequena amostra pra você se sentir culpado.- Uma voz feminina e arranhada ecoa pelo quarto.

– Culpado? Com isso? Pensei que você queria que eu entrasse no clima, estava até ficando exitado. – Ele acende um cigarro soltando um sorriso debochado, mas é visível sua expressão de dor contida, e ele prossegue – Tanto tempo sem me ver e não vou poder ver seus belos olhos verdes?

– Meus olhos nunca foram verdes, Hannow! ! !- Os vermes sobem até a altura das canelas de Hannow, filetes de sangue podem ser vistos escorrendo e sendo drenado pelas criaturas.

– Não? Sério? Nunca fui bom com olhos…

Nesse momento um vulto negro atinge o peito de Hannow atirando-o ao ar, se esborrachando no chão com os braços abertos e olhando ao redor ele esbraveja.

– Meu cigarro! ! Mais um que vai de vala, o que diabos vocês seres espirituais tem contra os meus cigarros????

Um vulto preto desce do teto e atinge violentamente Hannow como uma enxurrada de sombras negras, pouco se pode ver do seu corpo, sons de ossos quebrando podem ser ouvidos, ele não faz nenhum movimento depois disso…

O frio no quarto é cortante, não se vê absolutamente nada a não ser a pele extremamente branca de Hannow esticado no chão e uns poucos reflexos dos cacos de vidro que cobrem seus pés e canelas, uma figura vestindo trapos imundos e sujos de sangue velho pára aos pés do corpo deitado no chão, agachando-se de forma quase infantil essa figura cruza os braços sobre os joelhos e com uma voz fina e cansada diz:

– Hannow… Hannow, olhe pra você, que tipo de discípulo se tornou, aos pés da mestra, acabado, machucado… Morto. – Um silêncio se faz por alguns segundos, o qual é cortado por um leve e falho som de um isqueiro se acendendo.

– Me..eu.. Cig.. ar..roo… – Geme Hannow enquanto acende um destruído cigarro entre os dedos.

A figura que parecia quase que ter pena do moribundo fumante se ergue com raiva trazendo consigo uma onda negra que cobre o quarto até o teto, pode-se perceber alguns pequenos objetos tremendo no chão, a figura agarra o pescoço de Hannow.

– Por que você não morre???

Os olhos semicerrados de Hannow parecem sorrir, o cigarro escorre por sua boca e com os dentes sujos de sangue ele apresenta um visualmente desagradável sorriso e diz:

– He…he…he realmente não são verdes…

A criatura atira Hannow na parede com tamanha força que os quadros na parede caem e se destroem no chão, a criatura urra de ódio, o quarto se torna apenas uma massa negra, copos estouram espalhando cacos por todo o chão, folhas de papel rodopiam em volta da figura e colam nas paredes com a pressão do ar e a vela da lâmpada se acende tornando a cena ainda mais assustadora. Hannow está caído encolhido no canto do quarto, imóvel e sujo, suas roupas estão rasgadas e estranhamente manchadas de preto. Então a criatura no meio do quarto começa:

– Você sempre quis ser o mais importante, você sempre desafiou minhas ordens você acreditava que poderia me superar apenas burlando as minhas regras. – Nesse momento todos os objetos do quarto começam a tremer e a chama da vela atinge proporções absurdas, e a figura continua:

– Eu te amei seu idiota, e esse foi o meu erro, criaturas como você imploram pelo ódio alheio simplesmente para ter algo a superar, o amor pra você é enjoativo, e EU fui enjoativa pra você!- Os olhos da criatura feminina parecem exalar um tipo de brilho negro e ela prossegue:

– Eu paguei por isso. – Ela pousa a mão sobre o ventre. – Pelos seus erros e pelo meu principal erro, mas agora você não fará mais ninguém errar…

Nesse momento, enquanto ela falava e andava em direção ao corpo de Hannow, um pedaço grande do seu rosto cai ao chão, assemelhado com um pedaço podre de carne, ela leva a mão ao rombo desesperada, confusa, é quando então seu braço inteiro cai ao chão se desfazendo em pó.

– O que está acontecendo?? O que está acontecendo comigo?? – Ela choraminga em meio ao ódio e confusão.

O corpo de Hannow se vira, pode ser percebido o esforço nisso, ele esboça uma gargalhada, mas ela não sai, as pontas dos seus dedos estão sujas de sangue e na parede algumas letras porcamente escritas podem ser lidas.

– Sabe,cof, cof, eu não sou bom com olhos… Nem com nomes, tanto que depois de te olhar bem nos olhos e enxergar a sua alma, eu acabei sem querer escrevendo o seu nome errado na parede…

– Despedaçar… – Diz criatura ao centro do quarto, parece apavorada, porém estática cobrindo o pedaço do rosto que lhe falta, e Hannow prossegue:

– Mas sabe como é… começa com os pedaços sumindo depois entram em cena aqueles diabinhos, os que aparecem sempre que a gente sente ódio ou dor… e adivinha o que eu to sentindo MUITO agora? – A criatura arregala os olhos e se curva como que procurando ao redor, ele continua:

– Hora de dizer suas últimas palavras, benzinho, porque depois desse rito você vai sumir da minha memória, e você sabe bem que nela é o único lugar que você ainda habita.

A mulher no centro do quarto, sem o braço e com o rosto desfigurado estica o braço que lhe sobra na direção de Hannow, como que implorando para que ele parasse, com a boca semi aberta, trêmula, lagrimas negras escorrem do seu rosto, ela está encurvada seus movimentos são falhos.

– Am..mor.. Por favor, eu.. eu te amei, e veja o que VOCÊ fez comigo, olha no que você me transformou, e agora você vai me punir com o esquecimento eterno?

Hannow que parecia seguro de si vacila em continuar a traçar as estranhas combinações de letras na parede, ele se vira e fita a mulher em pedaços.

– Você nunca vai entender, não é? Não estou fazendo isso para te condenar ao esquecimento eterno… Estou fazendo isso pra esquecer o que eu fiz com você…

Ele se vira e traça duas ultimas letras, nesse exato momento as sombras ao redor da figura feminina começam a tomar forma, pequenas criaturas humanóides e espinhentas, encurvadas não medindo mais que uns 30 cm de altura, munidas de garras negras e pontiagudas, marcham em direção ao centro do quarto, a mulher ao centro grita e chora de desespero como se estivesse presa ao chão, aos poucos as criaturas alcançam-na e vagarosamente começam a arrancar pequenos pedaços do corpo dela, pequenos punhados e os levam a escuridão e logo em seguida outras criaturas surgem para reclamar um pedaço do corpo dilacerado, em meio a agonia e dor ela olha Hannow que está virado para a parede e grita:

– Seu Bastardo maldito! ! Veja o que está fazendo comigo, quero ver nos seus olhos, quero ver se você agüenta ver a minha dor! – Nesse momento uma das criaturas agarra seu maxilar e o arranca violentamente, apenas um som agoniante pode ser ouvido.

Hannow Permanece olhando para a parede, em poucos minutos tudo aquilo terminará e ela não existira mais na sua memória, nem na de ninguém.

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