Apesar de a temperatura ambiente ter diminuído bruscamente com a chuva e o vento e seu corpo estar tremendo, ele sabia que ali ainda seria mais confortável que seu quarto, mas não poderia ficar ali pra sempre, o que aconteceria naquela noite era só um prólogo de algo muito pior, logo estar sentado ali naquele banheiro vendo a água do chuveiro tilintando no ralo era uma enorme perda de tempo além de uma enorme covardia.

Enxugando o rosto e sentindo arrepios por todo o seu corpo ele sai do banheiro, o som da chuva é ainda mais forte no seu quarto, o vento soprando por entre as árvores e telhado das casas quase produz um som de assobio, daqueles que a gente só ouve em filmes de terror antigo e espera nunca ter que ouvir de verdade, no céu nuvens grossas passam rápido sendo substituídas por outras cada vez maiores, aquela chuva não cessaria tão cedo, e na cabeça de Hannow parecia que duraria pra sempre…

Ele se livra da toalha, seu corpo ainda está molhado porém quente, o cabelo desgrenhado e pingando o transforma numa imagem B de um monstro do pântano, a noite mal começou e ele adoraria que já tivesse acabado, mas ter um “personal poltergheist” não era algo sustentável e o ritual deveria ser feito o quanto antes.

Uma olhada ao redor e vemos o típico quadro de atividade fantasmagórica, portas do guarda-roupas abertas, quadros tortos na parede, espelhos tremendo quase trincando. “Ela está aqui” Ele sussurra ao perceber um vulto passar atrás dele; Um copo rola, cai e estoura no chão… Após isso percebe-se um silêncio sobrenatural, a luz dá uma leve piscada, Hannow se encontra ao centro do quarto de cabeça abaixada e seus punhos cerrados, o cabelo cobre os olhos, a luz agora pisca incessantemente um forte vento invade o quarto, Hannow se move, em passos que parecem contados ele anda em direção ao armário, sem olhar pra dentro dele como que mentalmente enxergando agarra algo, parece com uma lanterna retangular de madeira, sem ornamentos um cubo de madeira com 4 buracos redondos feitos nela, ele pousa esse estranho objeto no centro da sala e com um giz branco desenha um círculo ao redor dele, em cima da mesa do computador ele pega uma vela gasta e queimada pela metade e a encaixa dentro da caixa de madeira, o vento toma o quarto e pode-se ouvir o barulho do espelho trincando e abrindo fendas largas, a face séria de Hannow muda, o que antes era um ar sério se transforma numa expressão de ódio profunda, pode-se perceber as veias pulando em sua testa, ele em passo largo segue em direção ao espelho e desfere um chute violento contra o espelho e solta um sonoro VADIA!!!!

O espelho se despedaça e cacos voam por todo o quarto, Hannow parece tomado por ódio, pega o que sobrou do espelho e arremessa ao chão terminando o quadro de destruição, ele se volta ao armário e arremessando tudo que aparece a sua frente pega alguns cigarros e atira dentro do circulo, mais do fundo ele puxa uma garrafa de tom amarronzado e começa a beber, pega um dos cigarros do chão e acende, em sua raiva nem percebe que pisoteia cacos de espelho que fazem seus pés sangrarem, mas naquele momento isso não parece ter importância, Hannow dá mais uma golada e soltando a fumaça dos pulmões ele diz :

Essa foi a última vez que você quebra algo nessa casa, sua puta!

Hannow se ajoelha perante a lanterna, o cigarro preso entre os dentes semi-cerrados a garrafa em algum lugar do quarto, as luzes finalmente se apagam, o vento que antes era forte agora se torna violento e constante, a persiana é literalmente espancada contra a parede enquanto folhas com anotações voam por todo o quarto, porém ele se mantém ajoelhado estático murmurando freneticamente enquanto seus olhos tremem por detrás das pálpebras, a chama da lanterna estranhamente permanece fixa, estática e a vela parece não derreter, Hannow solta um grito com o que parecia ser um nome feminino, nesse instante a vela se apaga e o vento intrigantemente pára.
Nesse momento Hannow abre os olhos.