Face made of smoke

Hannow solta um grito, curto, contido, ele ainda pode sentir as mãos no seu pescoço o roçar das unhas descamadas em sua pele causando lanhos, o hálito de dentes podres ainda está em suas narinas, mas ele não a vê, ela não está lá, seu olhos cheios de lágrimas porém sem nenhuma emoção senão medo, sua cabeça confusa gira e lhe responde que deve olhar pro lado, aquela figura magra de cabelos pretos e mal tratados ainda está lá com sua calça de pijama de hospital e sua camisa de força velha e amarelada, ele olha pra ela, na porta uma criança ri, ele não presta atenção, ele ainda olha pra ela talvez não consiga se levantar pois suas pernas tremam ou talvez não queira levantar, ele simplesmente não entende.
Sério ele anda em direção a figura no canto do quarto, ele respira fundo, pensa em acender um cigarro mas lembra que está numa maldita sala acolchoada, talvez um pouco de fumaça o fizesse acalmar e aquela situação não lembrasse tanto um filme trash dos anos 80, ele estica o braço “Faça logo” ele pensa, sua mão pousa sobre o tecido grosso da camisa de força e ele tenta um movimento para virar aquele magro corpo, não é necessário mais que alguns centímetros para que ele possa perceber a pele acinzentada e as artérias estufadas, dessa distância pode-se perceber a ausência da respiração, dessa distância pode-se perceber a magnitude do problema, dessa distância ele pôde perceber o quão ferrado estava.
A fumaça do cigarro sai rasgando os pulmões de Hannow de forma mais violenta do que quando entrou, mas aquilo é a única coisa reconfortante que lhe sobrou pra fazer naquele fim de tarde enquanto saía do Hospital Pedro II, em breve encontrariam o corpo e provavelmente não o procurariam, quando alguém morria naquele lugar ninguém era avisado, nem família, nem Deus ou o Diabo… Mas Hannow foi avisado e ele sabia que essa noite ele teria o pior pesadelo de sua vida, mas que seria a única forma de entender tudo o que estava havendo.
Domingo 20h00min Meia garrafa de vodka e 3 maços de cigarros depois da ultima contagem, todos riem e se divertem, bebem, aquilo era a noite e estava apenas começando, todos vieram, mas eles sempre estavam ali, Hannow não tinha amigos, fazia tempos que não o tinha, amigos saberiam por que ele os chamara pra beber tão cedo e tão perto de um hospício, amigos perceberiam a inquietação de Hannow sempre que o vento fazia a porta bater, mas aquele não era o caso eles estavam ali assim como ele apenas para esquecer algo pra vivenciar algo ou apenas para esperar o tempo passar… já eram 02:30hrs a hora de dormir estava chegando…
Estou bêbado, ele pensa, enquanto tranca sua porta e segue para o quarto, as roupas são tiradas e jogadas de qualquer maneira e ele invade o banheiro, a água do chuveiro parece querer amenizar a dor de dentro de sua cabeça, e ele lembra da chuva, pingos de chuva castigando as velhas telhas de barro de sua casa, a fumaça do cigarro formando caracóis na escuridão e se misturando a fumaça do cigarro dela, ela ri, e olha pro longe ele calado admira seu rosto, “Como pode tão linda e com um cara como eu?”, pensa em silêncio, ela dá mais uma tragada e nuvens avermelhadas saem de sua boca, o gosto metálico e salgado de sangue vem a sua garganta, ele não consegue respirar, a chuva volta a cair sobre sua cabeça, ele sente frio, ele não consegue respirar, sua mão vai a garganta seus dedos se contraem ,ele não consegue respirar, aos poucos tudo vai tomando tons escurecidos os contornos se duplicam, ela sorri. Um bolo de sangue vermelho escorre pela parede do banheiro, Hannow se ajoelha em frente à privada e sente o líquido vermelho queimar sua garganta enquanto uma pressão parece querer estourar seu cérebro, o ar compete passagem com vômito, sangue e desespero, ele mal pode respirar, mas ainda sente que está vivo.
Há sangue por todo o banheiro ele reúne forças para levantar, sentado no azulejo frio, ao erguer a cabeça para tomar coragem ele recua e pensa que seria melhor ficar mais um instante…
Da fresta da porta no lado de fora, foi de relance, mas ele tem certeza que pôde ver, estava lá na escuridão a fumaça de cigarro formando caracóis… Um vento úmido e com cheiro de terra ganha o ar, Hannow sabia começara a chover