Capítulo 5 – O Jardim do silêncio

Que frio, nossa, como está frio aqui, meu corpo todo treme, maldito barulho de chuva, por que eu estou na chuva? Onde eu estou?
Hannow acorda deitado no chão de seu banheiro, a água congelante de seu chuveiro castigando a sua face, agora enrugada e pálida, seu corpo todo treme, ele se levanta se apóia na pia e se olha no espelho, seus lábios estão roxos, seus dedos mais enrugados que os de um velho de 90 anos, mas ele presta atenção em seus olhos… estão mais negros do que nunca.
Ainda são 14hrs, o sol ainda enfeita o céu, após se secar e guardar a nota mental de “nunca tome banho quando estiver com muito sono” ele sabe que aquilo não foi normal, afinal o que na noite anterior foi normal? Esse final de semana está mais louco que os outros, e o pior ainda não acabou. Ele olha no relógio e confirma que ainda dá tempo, veste uma roupa aparentemente limpa e bem passada penteia os longos cabelos e sai de casa, o rumo ele sabe bem, o motivo mais ainda e é isso que o incomoda.
Chegando a porta do velho hospital psiquiátrico Pedro II ele já pode sentir o odor fétido de vômito, urina e éter, típico de “hospícios” que mais parecem caixões para os que ainda conseguem andar sem saber bem por que. Ele passa pela recepção onde um enfermeiro negro e gordo assiste a alguma coisa na TV, ele reconhece Hannow e apenas acena com a cabeça, então ele segue por aqueles corredores, aquele “trem fantasma” onde em cada porta um rosto apavorante ou decrépito era apresentado, sorrisos sem dentes, camisolas sujas, cabelos desgrenhados, era tudo o que se via naquelas pessoas e foi ali que ele a deixou, não por mal mas sabia que ninguém a encontraria ali, pelo menos isso era uma certeza até a noite anterior.

Chegando numa ala mais velha, “a ala dos terminais” como era chamada, onde tudo era velho e empoeirado, baratas, ratos e lacraias enfeitavam o ambiente ele abre as grandes portas duplas que dão para a ala dos “violentos” e é recebido por uma menina que não deveria ter mais do que seus 6 anos de idade, ela parada como uma estátua na sua frente esboça um pequeno sorrisinho, Hannow se abaixa para ficar da altura da pequena dá um leve sorriso e diz.
– Você quer um pirulito ou quer que eu comece a traçar o triângulo agora mesmo?
Nesse mesmo instante o que era uma linda garotinha mostra uma versão cadavérica da mesma e desaparece no ar com uma piscada das poucas lâmpadas que ainda funcionam no corredor – Do triângulo pra lá, diabinho – Sussurra Hannow enquanto segue em direção ao final do corredor. Nessa ala as portas são reforçadas e de metal, apenas pequenas janelas mostram o conteúdo de cada sala – Já faz tempo – Pensa Hannow averiguando qual seria a porta certa. Na primeira porta ele vê uma sala pobremente acolchoada, boa parte do estofado das paredes, chão e até do teto estão rasgados e espalhados no quarto que ao centro abriga uma figura magra com apenas alguns tufos de cabelo, vestindo apenas uma camisa de força e mastigando pedaços do estofado que ele arranca com os dentes. Na segunda porta analisada, que foi até difícil perceber, havia apenas o que parecia ser uma pessoa muito pequena, também em camisa de forças, quieta parecia até não respirar – Não sabia que faziam camisas de força desse tamanho…- Diz Hannow virando-se para a última porta, que ele já sabia ela estava lá aguardando-o.

Ele sabia aquelas portas só se abriam pelo lado de fora, eles eram deixados lá pra apodrecer, e ele tinha feito isso deixado-a lá pra apodrecer, pra segurança dela, pensava ele, mas sabia que ninguém além dele acreditaria naquilo. A porta abria derrubando poeira sobre o chão acolchoado, o rangido tornava impossível qualquer entrada sutil, de todos os quartos esse era o que parecia mais velho e amarelado, no canto uma figura usando a típica camisa de força e uma calça de pijama de hospital se encontra encolhida com a cabeça colada no estofado do chão. Hannow se senta no canto oposto ao dessa figura apóia as costas na parede acolchoada e solta um suspiro cansado… fica alguns minutos calado olhando pro teto então finalmente solta:
– Eu sei que você não vai me responder, eu nem sei se você ainda pode me ouvir… Mas eu também não tenho nada que pudesse dizer que você gostaria de ouvir… – A figura permanece em silêncio e ele continua.
– Ontem eu soube de algo, algo ruim, e tive que lembrar de você, engraçado até tive uma esperança de te encontrar me esperando naquela janelinha rsrs… mas pelo visto foi inútil.- Hannow cruza os braços e coloca a cabeça entre os joelhos fechando os olhos, seu rosto esboça tristeza e ele continua.

– Você sabe que a culpa foi minha, eu sei que você me amava, eu também te amava você era minha mestra, mas ou era isso ou eu não estaria aqui agora podendo falar isso com você… eu sinto muito, sinto sua falta, sinto muito por isso tudo- Pode-se ver poucas lágrimas pingando dos olhos fechados de Hannow, e ele prossegue.
– Mas foi melhor assim, não é? Ao menos estamos ambos vivos, você aqui e eu lá fora, e ele está bem preso ai dentro, não irá mais incomodar e poderemos seguir nossas vidas como estamos agora… – Diz Hannow levantando a cabeça e abrindo os olhos.
-Então, ade…- Antes de Hannow terminar em sua frente surge uma figura magra de cabelos negros, sujos e quebradiços usando uma camisa de mangas muito longas e uma calça de pijama de hospital, ela segura com força um bom tufo do cabelo de Hannow e com um hálito fétido diz:
– Hora de inverter os papéis, amor.

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