Capítulo 4 – A Ferramenta

Sentado na poltrona o aleijado pega a toalha oferecida por Hannow, esboçando cara de total desgosto, e começa a enxugar a cabeça que escorre sangue e bebida, enquanto isso Hannow entra na cozinha, em tom de desespero o aleijado grita:
– O que tu ta indo fazer ai, cara? Não precisa fazer isso não eu bebo, cara eu bebo.
Hannow sai da cozinha trazendo 2 copos de que parecem com vidros de ervilha e rindo sarcasticamente diz:
– Calma, amiguinho, nós somos dois cavalheiros, não? Fui apenas buscar uns copos para nossa reunião social…

Em um tom meio desesperado antes mesmo que Hannow termine a frase o aleijado retruca:
– Você demorou muito, cara, por que demorou tanto? Ninguém demora tanto pra pegar copos, você ta mentindo, cara, eu sei que você ta mentindo…
E rebatendo na mesma velocidade que o aleijado Hannow corta:
– Não fui só pegar copos, fui procurar e lavar esses dois, essa sua casa está uma imundice – Diz Hannow enchendo um copo e deixando outro pela metade e pegando-o – Agora beba antes que eu tenha que te ajudar a fazer isso.
O aleijado pega o copo e o vira de uma vez só, pode-se perceber lágrimas escorrendo na imundice do seu rosto, ele bate o copo na mesa e fala com sua boca tremendo:
– Enche logo, quero que isso termine – Ele fala olhando nos olhos de Hannow e outra lágrima desce de seus olhos.
– Nossa, pra que tanta pressa? Ainda nem comecei a falar do último placar do Lagartense no campeonato – Diz Hannow num tom irônico enchendo o copo até a borda.
Com a garrafa quase no fim Hannow parece tenso, talvez não devesse ter usado a garrafa pra convencê-lo, podia ter usado a muleta, pensava ele, vendo que o aleijado ainda permanecia acordado, porém extremamente bêbado.
Depois de uma meia-golada o aleijado apaga como se outra garrafa tivesse atingido sua cabeça, Hannow esboça um sorriso e se levanta afastando os entulhos ao redor do aleijado posiciona-o de forma semi-ereta no sofá, entra no que é o banheiro e volta com um espelho pequeno de borda laranja de mais ou menos uns 20cm de altura. Hannow segura o espelho em frente aos olhos fechados do aleijado e puxa seu isqueiro do bolso e o acende a poucos centímetros do nariz do aleijado. Nesse momento os olhos dele se abrem e olham fixamente pra chama, Hannow apaga o isqueiro e pergunta:
– É você ou vou ter que mandar alguma entidade idiota pra algum lugar desagradável hoje?

Dando um tapa no espelho, fazendo-o voar longe e conseqüentemente se estraçalhar com o impacto o aleijado levanta num pulo e agarra o pescoço de Hannow e diz:
– Você vai me respeitar ou vou ter que usar as suas bolas pra enfeitar a minha árvore de natal, Papai Noel?
Ainda com as mãos do “aleijado” apertando sua garganta Hannow retruca:
– Te trouxe pro playground te entrego seu brinquedo favorito e você vai ameaçar os meus futuros filhos?
O “aleijado” solta o pescoço de Hannow e solta uma gargalhada alta, e ainda com um enorme sorriso estampado no rosto pergunta:
– Agora que tenho meu brinquedo, me diga, você preparou as ferramentas?
Hannow indo em direção a cozinha em ar sério responde – E que tipo de anfitrião eu seria?
– Do tipo morto – Responde o “aleijado “ da sala e logo depois solta uma gargalhada.
Hannow entra na sala com uma panela grande com um líquido borbulhante que parece ser óleo, o “aleijado” abre um sorriso ainda mais largo e estende as duas mãos agarrando a panela segurando-a com as duas mãos como se ela estivesse gelada. Hannow sentando na frente do aleijado acende um cigarro dá uma última golada no seu copo e em tom sério diz:
– Antes que você comece a brincadeira preciso que você me ajude com uma coisa – Diz tirando o celular do bolso e mostrando ao “aleijado”.
O “aleijado” dá uma boa olhada naquilo e esboça uma cara séria, que logo depois é seguida por uma gargalhada zombeteira e ainda rindo diz:
– Isso, mortal idiota, quer dizer que tudo o que você tem feito tem conseqüências, e essas conseqüências te acharam e vão acabar com o teu couro.
Hannow, abrindo um sorriso de canto de boca questiona:
– E quem é dessa vez?
Deixe-me ver se seu pagamento vale a resposta, diz o “aleijado” enfiando as duas mãos na panela de óleo fervente que começa a pipocar e fumaçar espirrando óleo fervente ao redor. Hannow se levanta de modo que os respingos não o atinjam e dá uma longa tragada no cigarro. Os olhos do “aleijado” se enchem de sangue suas veias parecem querer estourar por todo o corpo porém seu rosto parece sorrir de forma grotesca enquanto faz aquilo.
– Ahhh… Sim esse é o pagamento que eu mereço, isso é o que eu quero – Diz o “aleijado” tirando as mãos em carne viva de dentro da panela, pode-se ver que a pele e os músculos ainda fritam com o óleo que escorre pelos dedos – O que acha desse show, mortal? Não tem pena desse corpo?
Hannow solta a fumaça fazendo uma cara entediada e diz:
– Cheiro de porco fritando, agora minha resposta pra que você possa continuar seu namoro caliente sozinho, ok?
O “aleijado” solta uma gargalhada animada e aproxima as mãos queimadas do rosto de Hannow, esse não faz qualquer movimento, apenas uma leve expressão de nojo. O “aleijado” diz:
– Aquele que foi expulso e amarrado na árvore podre e untado com vermes, é esse que agora quer você.
Pela primeira vez naquele dia Hannow sente um arrepio na espinha e sua expressão traduz pavor, porém logo é disfarçada por sua habitual expressão debochada, e se virando ele diz:
– Valeu pela informação… – andando em direção a porta e abrindo-a – Sabia que você não ia me decepcionar, por isso deixei outra panela igual a essa lá no fogo, divirta-se.

Hannow sai batendo a porta, ao mesmo tempo pode-se ouvir o som de muita carne fritando e óleo pipocando seguidos por uma mescla de grito e gargalhada o cheiro de “porco fritando” invade o ar. Hannow acende um cigarro e pega o celular no bolso, dá uma olhada na foto e olha pra cima e suspira preocupado, logo depois volta ao celular e acessa a agenda, seleciona um contato escrito “aleijado o estuprador”, clica no botão apagar e confirma e sussurra pra si mesmo – Provavelmente esse não vai me ajudar mais…

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