Hannow volta à sua casa acompanhado do baixinho careca, esse ainda lamenta pelo prejuizo tomado em prol de seu desejo pela carne, mas aos poucos parece aceitar a idéia de que não terá seu dinheiro devolta, Hannow por sua vez se ocupa em analisar alguns livros e papéis velhos que estavam guardados em sua estante, o ar parece pesado, ambos sentem isso mas se calam, o ambiente já estava deveras tenso para algum comentário desnecessário, o baixinho foi o responsável por quebrar o gelo perguntando:

 

– E então o que viemos fazer aqui?

– Eu vim entrar em contato com algo que possa me ajudar num ritual mais velho que o tempo, e você, bem você veio aqui se lamentar, até onde eu percebo.

 

Com uma feição de vergonha no rosto o baixinho tenta:

 

– Bem, eu posso ajudar em algo, você não me parece muito bem, não vai explicar por que está todo arrebentado?

 

Hannow para por um segundo passando a mão no pescoço inchado e olhando as marcas espalhadas pelo corpo, por um instante ele esboça dor, mas então pega um cigarro e acende-o, e desconversa.

 

– Ok, se você quiser me ajudar, encontra pra mim ai uma vela marrom e uma pemba marrom, e uma edição velha do alcorão que está guardada ai no fundo da gaveta.

 

O baixinho se anima e começa a busca, Hannow fica parado por um instante, ainda olhando para seu corpo mutilado, mas prossegue com sua busca nos documentos antigos.

 

Após alguns minutos o baixinho entrega a Hannow tudo o que foi pedido, Hannow não agradece, apenas folheia o velho alcorão e dele arranca algumas páginas, e começa a traças círculos no chão e posicionar velas, afastando cacos de vidro e papéis que estão espalhados por todo canto, por fim arranca um pedaço de reboco da parede e posiciona em frente ao círculo, o baixinho apenas observa, Hannow tira a blusa, a quantidade de hematomas e cortes é quase incontável, alguma feridas ainda estão abertas e delas pode-se perceber sangue vertendo, o baixinho se prontifica.

 

– Po Hannow, você não acha melhor cuidar disso ae não?

 

Hannow apenas se vira pra trás e apagando o cigarro responde:

 

– Não é hora pra frivolidades, rapaz, e por falar nisso acho melhor você ir embora, as coisas podem não sair como o esperado por aqui, eu não pratiquei muito esse ritual, acho que agora seria um bom momento pra você ir.

 

O baixinho quase que infantilmente pergunta:

 

– Po Hannow, a gente tanto fala sobre essas coisas, acho que seria interessante eu ficar e assistir, ver como as coisas funcionam na prática, eu prometo não atrapalhar.

 

Hannow nega, mas depois de alguns minutos de insistência acaba cedendo, ele traça mais um círculo e alguns símbolos nele e ordena que o baixinho fique dentro dele.

 

– Fique ai dentro e não saia até que eu mande, permaneça de olhos fechados durante todo o processo assim talvez você consiga ver alguma coisa, fique em silêncio e apenas se concentre, ok?

 

O baixinho confirma com um movimento com a cabeça, parecendo uma criança antes da gincana na escola, Hannow se volta para o ritual. Sentado em seu círculo ele fala algumas palavras estranhas e então pega as folhas arrancadas do alcorão e as pica e mistura com os pedaços de reboco, permanece sentado com os braços estendidos por um tempo, ele fecha os olhos e quando os abre já é noite. Passos ao longe podem ser ouvidos, descompassados, arrastados, algo duro ou metálico parece se mover, como alguém que utiliza uma prótese, Hannow apenas espera e aos poucos saindo de dentro da parede ele tem o primeiro contato com seu visitante.