… De repente aquele clarão foi rapidamente aumentando, sua visão ficava clara com bordas vermelhas, era como se enxergasse através de uma cortina de pele humana, aquele brilho só podia ser algo ruim, aquele brilho só podia ser um…  PÉ PÉ PÉ PÉ PÉ PÉ… Maldito barulho, maldita claridade e maldita bebida… Nem lembro direito o que eu tinha bebido na noite anterior, mas provavelmente não tinha esse gosto de guarda-chuva com mesa de sinuca batida no liquidificador. Os pedaços do que eram uma persiana já não servem mais para impedir a luz de me dar boas vindas ao mundo da dor de cabeça. “Eu vou parar”, pensava sempre que fazia um movimento brusco, enquanto tateava ao redor da cama e das roupas amassadas em busca de um cigarro, um singelo maço verde desbotado e amassado, mas mostrando ainda algum volume era o sinal de que o dia não começara tão ruim, o cigarro aceso e a esperança de que com ele toda aquela maldita ressaca passaria ou ao menos daria coragem pro primeiro copo d’agua do dia, aquele que sempre vem com gosto de vodka. O cigarro já ia acabando quando ele se dá conta de que ainda está na mesma posição de quando acordou, deitado olhando pro teto seminu, uma virada de cabeça e ele percebe que está atrasado denovo, provavelmente 15 minutos pra levantar, tomar banho, trocar de roupa, fazer o almoço, almoçar e andar até o ponto de ônibus… na sua mente a frase “só mais 5 minutos” parece bem plausível, afinal ainda sobrariam 10. Depois de um banho mal tomado e um conjunto calça, blusão e sapato mal passados ou engraxados ele está lá no ônibus sentindo o vento nos seus cabelos. Mais um dia normal, ele pensava mais como desejando isso, como se esse pedido fosse tão frágil quanto o mais fino dos cristais e poderia se quebrar a qualquer segundo, os minutos vão passando a mente faz com que a viagem pareça mais rápida, a devagação é tamanha que ele mal percebe que se encontra num engarrafamento monstro, naquela avenida nem é necessário perguntar se foi algum acidente, e o som da sirene dos bombeiros o faz despertar de seu transe de pensamentos, e o faz perceber que já está mais de meia hora atrasado e provavelmente vai aumentar facilmente esse placar, apesar do engarrafamento não ser quilométrico a coisa parece ser bem feia, muito sangue na pista e uns 3 carros bem amassados. Uma boa razão pra chegar atrasado, pensou ele, uma foto com seu celular barato ajudaria a convencer a patroa de que ele fora vítima de mais uma armação do destino, todo sábado era assim, ele atrasava ela dava esporro ele jurava não repetir e fazia o mesmo no próximo sábado, era quase como um acordo entre as partes. Um bom ângulo, era tudo o que ele precisava, um bom close na poça de sangue pra chocar a velha patroa religiosa, uma esticada pra fora da janela e CLICK, um som estúpido é emitido pelo celular e faz com que o acidente pareça uma reprise de “lagoa azul” e o idiota que apertou o botão a estreia de “o senhor dos Anéis”, uau, um pouco de ibope, ele pensa, mas logo a poça de sangue volta a ser a atração principal. “Abutres”, pensa ele, nunca entenderia a necessidade humana e ver gente morta e de acreditar que isso é um assunto confortável para se falar com os amigos… Bem, hora de ver se terei que bater outra foto, seu celular vagabundo ainda processando a foto tirada a quase um minuto, a espera é normal, o resultado não foi bem o que ele esperava… Quase uma hora atrasado ele chega, seus alunos sorriam e falavam algum tipo de asneira da moda enquanto acenavam pra ele com uma cara de “a gente já sabia”, por sorte os problemas não viriam dos clientes mas do proprietário, nesse caso uma senhora velha, magra, mal-humorada e viciada em café, ex-fumante compulsiva. A chamada entravam por um ouvido e se perdia em algum lugar na sua cabeça, não porque ele fosse alguma espécie de funcionário rebelde ou desleixado, mas tinha algo pior pra se preocupar e esse algo estava olhando pra ele na tela do seu celular.