Escuro demais, cansado demais, dor demais… eu não deveria mais estar aqui, uma vontade louca de sair correndo e gritando,encontrar a primeira estrada e seguir simplesmente em linha reta, mas os corredores daquela casa eram o único caminho que ele seguia, ele podia dizer que a cabeça doía, que o corpo doía, mas ele nem tinha certeza se ele ainda tinha corpo, ele apenas sentia os passos e as paredes vindo em sua direção, algo o controlava e isso não era bom, ele queria ficar irritado, puto, mas estava morto demais pra isso.

Era um quarto, não muito diferente dos outros apenas maior e mais iluminado, e nada tão claro assim, porém tudo estava visível e num dos cantos ela estava lá, aquela maldita de cabelos vermelhos, sentada em uma cadeira de madeira grande e velha, parecia uma daquelas que os maçons usam porém mais danificada e ornamentada, ao seu lado uma pequena mesa com um pote de vidro, nele tinha algo que parecia um líquido vermelho com um bolo de centopeias girando e se entrelaçando grotescamente, vez ou outra ela passava a mão no estranho líquido e deixava uma centopeia correr pelo seu braço. Era nojento.

Hannow não estava bem, não parecia bem e não se comportava como se estivesse assim, ao batente da porta ele recostou e observou aquela mulher, seu ódio era imenso mas lhe faltava algo que movessem as pernas, não existia força, não tinha mais nada que pudesse usar… Ele chegou lá, mas não tinha condições.

A ruiva levantou-se e parecia já saber que aquele momento aconteceria, desfilou até Hannow e com um leve sorriso no rosto disse:

– É só isso? Esperava um pouco mais de você…

Hannow não entendia bem o que acontecia, ele não entendia bem o que tinha acontecido a poucos minutos, por ele a cova era o fim daquela noite, mas de alguma forma ele estava ali, de pé em frente àquela maldita que além de ter fodido com a realidade dele ainda zombava da cara dele, e estranhamente parecia saber mais que ele sobre aquela situação.

E ela prosseguiu?

– Eu te bati, castiguei, praticamente te matei, e me prometeram que no final teria ELE, o grande, algo muito maior que esse patético cabeludo quase morto na minha frente…

Ela se aproxima de Hannow.

– Será que eu esqueci de alguma coisa?

Ela passa o dedo pela testa ensanguentada de Hannow desenhando um singelo coração.

andando em direção à cadeira ela simplesmente solta:

– Acho que me enganei… Você é fraco.

Uma cólera toma conta de Hannow, ele sente o sangue queimar em suas veias, seu coração parece uma bateria de punk-rock, ele aperta as mão nas paredes que o apoiam, ele quer voar no pescoço dela, ele quer parti-la ao meio, mas simplesmente não consegue, não tem mais força nem pra mais um passo… pra mais nada.

Por um momento ele pára e se pergunta:

– Então, por que eu cheguei até aqui?

Um vácuo se forma ao redor de Hannow, o mundo inteiro desaparece, a dor, o cansaço a respiração, tudo simplesmente some, o que sobra é apenas o vazio… por um momento Hannow pensa:

Eu morri?

Não houve tempo para pensar nisso, uma entidade negra em forma de vulto surge na frente de Hannow, se assemelhava a uma enorme nuvem de insetos bem pequenos porém todos negros e disformes que rodopiavam ao redor do que seria o “corpo” daquilo.

De dentro dessa massa grotesca a voz surgiu:

– Pronto pra se aceitar?

Hannow que já não sentia mais dor ou cansaço se ajoelha e abaixa sua cabeça.

A voz novamente insiste.

– PRONTO PRA SE ACEITAR?

Uma lágrima desce no rosto de Hannow e atinge o vazio aos seus pés e com uma voz amargurada ouve-se, quase inaldível.

-Sim.

Luzes se acendem, Hannow observa a ruiva desfilando tranquilamente em direção ao seu trono, o ambiente bizarro ao redor parece o local perfeito para o que ele deseja àquela filha-da-puta, e ele não perde tempo. Como um raio ele corre na direção da altiva mulher.

Ela percebe os passos rápidos em sua direção e se vira a tempo de ver o que provavelmente não gostaria de ter visto, Hannow novamente parecia um animal. Seus olhos tinham alguma cor, qualquer cor, ela jamais teria tempo de perceber, a única coisa que ela pode ver bem foi a palma da mão de Hannow fixando entre seus olhos e arrastando sua cabeça para dentro do pote de centopeias.

Não fosse o afogamento na água misturada com sangue ela perceberia aquelas criaturas tentando entrar em cada orifício em sua cabeça, não só os que ela já tinha mas os que Hannow fazia enquanto batia seu crânio contra os pedaços de vidro da jarra… ela quase não sentia dor, ela sentia a água entrando em sua boca e nariz, um entorpecimento pela falta de ar e alguns impactos que faziam sua visão brilhar, brilhar como os fogos de outrora… da época que o tinha conhecido, mas ele não lembrava.

Hannow batia a cabeça da ruiva contra aquele vaso de centopeias como se quisesse que ambos se fundissem, aquilo seria o fim, aquilo iria acabar, ela tentara matá-lo e agora perceberia o quão errado é TENTAR fazer isso.

O fôlego acabou e Hannow caiu sentado, o ar entrava em seus pulmões como navalhas, ele observou ao redor, toda aquela nojeira, o corpo da mulher dilacerado e aqueles bichos se arrastando no chão, ele respirou mais uma vez, levantou-se e seguiu em direção a porta, mas antes de sair ele disse quase que inaudível.

– Vou comprar cigarros.