“A porta não se movia, a água não parava de se mexer,a temperatura não parava de cair, podia ele estar mais fodido do que aquilo? Ele sabia que podia…”

O quadro era tenso, mesmo depois de todas as monstruosidades que já haviam acontecido na vida de Hannow essa era uma que trazia as memórias mais amargas, “E olha que eu já fui pro inferno…”, às vezes zombava ele ao citar o fatídico encontro  com a tal entidade.

Foi com esse pensamento que ele largou a maçaneta enferrujada da porta à sua frente e levantou seus olhos ao teto, soltou um longo suspiro e se virou para o que lhe perseguia.

Da água começava a brotar a figura apodrecida, os traços lembravam um humano e se o fosse seria uma mulher alta e esguia, haviam mechas de cabelo penduradas em pontos aleatórios do crânio e só a faziam ficar mais horrível, um pano longo e cinza cobria a figura do pescoço para baixo porém grandes rasgos deixavam à mostra grandes pedaços de pele podre e pulsante.

– Você está mais feia que da última vez…- Diz Hannow enfiando as mãos nos bolsos.

A figura parece flutuar sobre a água, o pingar da água pútrida além de fazer barulho exalava um fedor insuportável que tomava todo o corredor, o ambiente parecia ficar mais escuro a cada centímetro que ela se aproximava. Ela chorava com as mãos tentando esconder o rosto porém seus dedos esquelético e podres não cumpriam bem o serviço, era possível ver sua face cadavérica com enormes olhos brancos, vazios como o nada dos quais brotava um líquido espesso e aquoso que ao encostar nos trapos de seu vestido automaticamente se tornavam vermelho sangue, era algo realmente feio de se ver.

Apesar de ter engolido todo o pânico num gole só Hannow sabia que bicho era aquele e o quão letal ele podia se tornar de uma hora para outra, não restavam muitos truques na sua sacola de mágica e o seu corpo físico também não ajudava, ele precisava evitar o conflito ou ganhá-lo o mais rápido possível.

Enquanto ele pensava a mulher morta se aproximava dele, agora com seu “vestido” quase todo coberto de vermelho o choro começava a tomar um rumo diferente, o que antes era angustiado e triste agora se tornava desesperado e raivoso, as mãos que antes cobriam o rosto em suas palmas aos poucos iam se fechando arranhando a pele pútrida e mostrando uma feição que só podia significar uma coisa, muito ódio.

O tempo se esgotara, Hannow sabia disso, agora era a vez de partir com tudo para cima daquela vadia morta antes que ela começasse a soltar seus gritos infernais, era o momento de derrubá-la com tudo e sair dali o mais rápido possível.

Os pêlos dos braços e pescoço de Hannow ouriçavam-se, ele murmurava palavras que faziam o espaço ao seu redor tremer, a água ao seu redor se desfazia antes que pudesse alcançá-lo, um formato de círculo envolvia seus pés e desse uma forte iluminação azul ciano era expelida, os vidros já sujos e quebrados das portas ao seu redor explodiam e iam ao ar.

Porém tudo pára.

O gosto metálico sobe pela sua garganta, lhe falta força para manter a postura ereta mas estranhamente ele não cai, sua visão fica trêmula e começa a escurecer, mas ele sabe que não pode apagar naquele momento, não naquela situação e nem naquele lugar, mas o que aconteceu? Ele se perguntava, ele estava concentrando todo o poder que lhe restava.

Sua cabeça pesou e inclinou pra baixo, ele pôde ver a cabeça cadavérica da mulher demônio devorando suas entranhas, era isso que o fazia não cair, ela estava praticamente com metade da cabeça enfiada dentro do abdomén de Hannow, mastigando vorazmente suas entranhas enquanto suas longas mãos pútridas o seguravam para que não caísse.

“Mas como.. tão rápida… como?” Eram as únicas frases que se formavam na pouca consciência que Hannow ainda sustentava enquanto era literalmente devorado por aquela entidade.