“Todos os sites sobre sobrenatural estavam em chamas, ninguém podia acreditar que aquilo acontecera, alguns chamavam de síndrome da morte súbita, outros diziam ser maldição do capeta, a única coisa que incondicionalmente era verdade era que eles apenas tinhas ido dormir e terminaram os seis mortos…”

O hálito fétido da entidade invade as narinas de Hannow, na verdade invadiu sua alma mas àquela altura do campeonato muitas definições já estavam embaralhadas em sua cabeça, era possível sentir as mãos se esticando no ventre da criatura tentando alcançar o perispírito de Hannow.

Eram os sofredores de pesadelos, eram aqueles desesperados tentando acordar, com seus corpos fixos colados à cama, em pânico sem saber o que os prendia, eles tentavam se agarrar à pouca luz da alma de Hannow, mas em vão, eles estavam sendo digeridos, suas energias estavam sendo digeridas e se transformando nas vontades daquela maldita e grotesca entidade, e a vontade dela era bem simples, ela queria engolir Hannow.

Ainda tonteado pelo súbito avanço da entidade Hannow recua alguns passos pra trás, meio cambaleante, realmente aquilo o afetara mas não fazia sentido… algo deveria estar acontecendo ao seu corpo para que ele tivesse tendo tão pouco controle de seu corpo astral, estaria a mulher de cabelos vermelhos lobotomizando Hannow enquanto ele estava presso naquele inferno? Perguntas demais e absolutamente nenhum tempo para gerar respostas, era necessário agora usar toda a concentração e habilidade possível para mostrar praquele bicho imundo quem iria viver mais um dia.

O pensamento súbito de perigo e falta de tempo fez Hannow voltar ao seu normal, afinal quem iria querer padecer num lugar daqueles? Ele solta um sorriso.

Com sua voz irregular a entidade esganiça:

– Eu vou devorar sua paz, apagar sua luz humano, você vai ser parte de mim e de você eu vou trazer mais dor à esse lugar, você vai ser eu e eu serei aqui…

Hannow tira um cigarro do bolso  e o pendura no que antes era um sorriso.

– Bela proposta, bicho, mas não sei se esse meu hábito vai ser bom pro nosso relacionamento.

Nesse instante a ponta do cigarro em sua boca acende, e a temperatura ao redor parece subir rapidamente, a ondulação do que deveria ser o ar torna a visão turva mas aparentemente não existe nenhuma chama além da pequena brasa à ponta do cigarro.

A entidade ergue a cabeça e apresenta olhos arregalados porém completamente negros, a pequena brasinha reflete neles causando pânico à criatura.

– Sabe o que dizem em hospitais, né bichão?- diz Hannow puxando uma tragada.

– Cigarro mata.

As ondas de calor se tornam absurdamente violentas, a entidade antes imponente e segura se ajoelha frente ao calor escaldante, pedaços de papel e pedaços de entulho queimam e se esfarelam indo ao ar, apesar de não haver corrente de ar os objetos rodopiam por todo o corredor, não só a criatura queima e grita de dor, os poucos moribundos vestidos de pacientes que ainda não tinham se afastado também entravam em combustão quase espontânea, não sem antes soltar gritos e súplicas horríveis, mas felizmente elas cessavam rápido.

As almas dentro da barriga do bicho começavam a rasgar suas entranhas e seus braços encontravam nos buracos de sua carne a tão esperada liberdade porém queimando logo em seguida com o calor que ainda castigava seu hospedeiro.

Hannow permanecia parado, segurando seu cigarro aceso e de vez em quando dando lhe umas tragadas, a cena à sua frente era horripilante e perturbadora, calor sem luz, sem ar, era quase como um desintegras de pessoas e monstros perante seus olhos, porém pequenas labaredas que saíam dos objetos flutuantes lhe faziam entender a lógica daquilo tudo, porém algo o preocupava… aquela maldita entidade estava demorando muito a morrer.

-Desgraçado, eu podia sentir seu cheiro, você estava tão perto pude absorver o seu desespero, sua preocupação, seus pecados… o que deu tão errado? Por que esse calor horrendo me fez parar e agora o sinto desfazer meus ossos sob minha pele, a pouca que me resta, perdi o controle sinto minhas vísceras escapando, minhas almas condenadas sentindo o prazer da esperança, elas escapam de mim como um óleo pútrido e negro, sem controle aos montes… o que deu errado? O que aquele maldito humano tinha? Estaria eu errado? Será que ele não era só um humano no fim das contas? Por que estou me perguntando essas coisas? Meu corpo inteiro queima e não sinto mais que tenho pernas ou braços, apenas pontas de ossos expostas foi o que me restou… não posso deixar que ele ele leve o que restou…

De súbito a entidade agonizante em frente à Hannow estaca seus braços em suas enormes órbitas negras, fazendo escorrer pelo rosto dilacerado líquido negro, líquido que mais se assemelhava à própria escuridão… Ela desaba, lentamente de costas… o cigarro de Hannow se apaga.

Hannow andando em direção ao enorme e carbonizado corpo começa:

– Talvez você deva estar se perguntando o que aconteceu? E por que está tão fodido…

Ele acende um cigarro, o corpo ao chão treme…

– Relaxa, esse é um dos normais.- Diz Hannow se agachando ao lado do corpo.

– Já ouviu falar em Djinns do fogo?

Hannow enfia as mãos dentro do estômago do bicho, líquido preto e viscoso espirra pra todos os lados.

– Pois é, eles não existem…

Ele força dentro da entidade como se procurasse algo dentro daquela massa negra.

– Você não imagina a minha decepção quando descobri isso…

Vê-se movimento dentro da criatura e Hannow começa a puxar algo que parece um corpo, e o mais assustador o corpo parece conter vida.

– Mas obviamente isso não ia me impedir de ter e escravizar o meu próprio Djinn do fogo… o que eu fiz? Criei o meu.

Hannow puxa uma pessoa de dentro do estomago do bicho, desproporcional ao que sobrou dele mas uma pessoa inteira foi retirada de lá, e ainda mais absurdo pareciam haver outras.

– Imagine uma ponta de cigarro, um selo de criação, um selo de invocação, muito trabalho duro e o elemento puro para lhe dar vida.

Seis corpos foram retirados de dentro da poça negra.

– E pronto, você tem um truque que entidades ignorantes e arcaicas como você não estariam prontas para imaginar, divertido não?

Os seis corpos se arrastam pelo corredor…

– Hannow limpa as mãos na camisa e acende outro cigarro, ele fita os corpos se arrastando e observa até que a última gota de vida suma dos olhos estourados da entidade.

-Agora vai começar a parte realmente ruim…

Hannow vai em direção a um dos corpos que havia retirado de dentro da entidade, parece um corpo humano comum que se banhou em óleo negro, apesar de careca percebia-se que parecia uma jovem com não mais que vinte anos, ela se encolhia e tremia indo em direção ao canto do corredor, quase inaudível dava pra ouvir uns choramingos.

Hannow pára em frente à moça, e se ajoelha numa posição quase infantil e ergue o rosto dela pelo queixo. Ele a fita bem nos olhos, são olhos castanhos e grandes, muito assustados, algumas lágrimas se misturam ao líquido negro que cobre seu corpo, Hannow apaga o cigarro no chão e olhando fixamente pra ela sussura.

– Espero que você possa me perdoar por isso…

Sua mão crava bem abaixo do seio esquerdo da mulher, os olhos que antes choravam agora estão estáticos, abertos ao máximo, as pernas da jovem se debatem no chão empoeirado, por um, dois, três minutos… e finalmente param.

O corpo antes jovem e humano agora começa a ressecar e em poucos segundos se torna uma escabrosa estátua de cinzas, dela Hannow tira uma pequena pedra preta e prontamente engole, ele se levanta e segue em direção aos outros seis sobreviventes que se arrastam sem saber o que acabara de acontecer, limpando a poeira das mãos ele diz:

– Espero mesmo que vocês possam me perdoar.