“Pequenos movimentos, sinto cócegas no meu rosto…”

Os olhos de Hannow se abrem lentamente, o corpo não se move é como se estivesse de alguma forma desligado, porém não lhe deram a dádiva da dormência, ele pode sentir as pequenas patas insetóides deslizando pelo seu corpo, são centenas delas e não parece que irão embora tão cedo.

– Centopeias hein… parece que alguém tentou fazer o dever de casa…

Hannow está deitado em uma banheira no estilo colonial, velha e rachada, dentro água velha e suja fervilha com o movimento das centopeias que circundam seu corpo, algumas entram em seus ouvidos e boca, mas estranhamente ele parece não liga, na verdade ele parece bem mais raivoso que assustado.

– Isso é o melhor que você pode fazer? Sinto lhe informar menina centopeia mas eu já superei essa fobia a muito tempo.

A imagem da mulher de cabelos vermelhos vai se formando ao lado da banheira onde Hannow se encontra, junto com todo o cenário ao redor, esse que parece uma cobertura de prédio abandonado, vasos de plantas, reservatórios de água empoeirados além de muito entulho enfeitam o local. O céu é estranhamente claro mas seu tom varia de azul para cinza com certa constância, como se estivesse ainda se definindo.

– A muito não se tem notícias de você por essas bandas Hannow, temos que nos virar com o que sabemos.- Diz a mulher de cabelos vermelhos enquanto segura uma centopeia nas mãos e a atira no rosto de Hannow.- Mas imaginei que não precisava ter fobia de lacraias para achar essa situação um tanto aterradora.

Ela dá a volta na banheiro e se debruça acima da cabeça de Hannow.

– Afinal você sabe onde estamos, você está paralisado de medo e coberto de insetos além dos que entram e saem do seu corpo… Hannow, meu querido você já era.

Ela termina a frase com um sorriso malicioso nos lábios, uma brisa joga um pouco de poeira na já imunda banheira, Hannow ainda parado corta o silêncio.

– Tem algum cigarro por aqui? – Diz Hannow levantando da banheira como que sai de um banho de espuma. – Todos esses insetos me estressaram de verdade.

A mulher de cabelos vermelhos se vira para tentar entender o que acontece, ela deixa transparecer a feição de confusão, Hannow explica.

– Ok Ok, você deve estar se perguntando o que deu de errado, né? Mulher, entenda, paralisia por medo em projeção só vai funcionar em dois casos, se a pessoa estiver com medo ou se você consegue induzir medo na pessoa, você é ruivona, bonita e me beijou, medo é a última coisa que eu vou sentir de você, e a história das centopeias, acredito que já sabemos que não vai funcionar.

Ela parece ainda mais perplexa, mas dessa vez tenta manter a postura de vilã manipuladora e continua:

– Impressionante, longe de casa e continua arrogante como sempre… Mas não tem problema, essa banheira seria apenas para o interrogatório, o seu problema, você já deve saber, é esse prédio.

Hannow anda lentamente pela sacada do prédio como quem confere algo, ele observa os detalhes de toda aquela bagunça empoeirada e pára na frente da ruiva.

– É esse prédio mesmo…- Solta ele se auto-confirmando.

– Felizmente alguma informação sobre você ainda é válida, Hannow. Acredito que depois de alguns anos aqui você vai implorar para responder às minhas perguntas e depois vai desejar estar morto mais que nunca.– Solta a mulher com ar triunfal, porém é cortada por Hannow.

– Ah, cala a boca e vaza logo daqui, ainda tenho um hospital amaldiçoado inteiro pra atravessar.

Indignada e claramente raivosa a ruiva se desintegra em pó na frente de Hannow, esse segue em direção à uma entrada no chão onde uma escada de madeira dá acesso ao andar de baixo. Um pouco antes de descer o primeiro degrau ele apalpa o bolso da calça e solta um sorriso, puxa um cigarro e o acende, solta uma longa baforada e sussurra.

– Agora isso aqui vai virar um inferno…