O medo dominava a expressão daquele jovem, ele não deveria ter mais do que 20 anos porém encolhido no canto do quarto chorando parecia ter no máximo uns 15, as palavras não saíam completas da boca dele, seu corpo todo parecia tremer, não conseguia ver se ainda havia esperança nas atitudes dele, mas Hannow não estava preocupado com isso, não podia se preocupar com isso, agora seu trabalho era esse ele dependia daquilo e sabia que compaixão não era o seu forte.

– Por favor, eu não fiz nada com você.-  Era a frase que o garoto repetia de forma embolada

– Garoto, gostaria muito que você tivesse sido avisado, assim poderia culpar a sua inconseqüência, mas certos caminhos você não tem o luxo do arrependimento…

Enquanto limpava o sangue de suas “ferramentas” Hannow pensava, “talvez gente estúpida vá para um lugar melhor”, o pensamento era sempre seguido de uma gargalhada que ele sabia bem não era pura imaginação, e o que enterrava uma pequena tentativa de não se sentir culpado ou frustrado com o que acabara de acontecer.

Guardado tudo o que foi buscar numa velha mochila jeans, Hannow se levanta e caminha em direção à porta, aquela noite seria longa e esse tinha sido o trabalho menos violento dela.

 

 

9 MESES ANTES…

 

Eu Morri.

Era essa a frase que o acordou, era a única frase que fazia sentido… Na verdade nada mais fazia sentido. Dentre ex-namoradas mortas, informantes tostados com óleo fervente, ossos quebrados e prostíbulos vodu… o que mais parecia fazer sentido era o fato de ter encarado uma entidade ranzinza e ter morrido durante o processo, porém pessoas mortas ainda se perguntam “eu morri?”, não importava.

Olhos abertos finalmente, o cenário era familiar, era uma espécie de casa do Hannow pós guerra nuclear, porém ainda era a casa do Hannow. Quanto tempo se passou? O corpo doía, estava magro, cansado a boca mais seca que qualquer ressaca já experimentada, o maço de cigarros estava mofado já se fundindo com o piso, e o fedor, era como se alguém tivesse morrido lá.

Embaixo da água congelante e fraca do chuveiro ele conseguia calcular melhor os danos, apesar de nenhuma memória lhe vir à cabeça ele já podia traçar uma linha temporal, sabia que tinha sido mastigado cruelmente durante uma invocação, sabia que estava em estado deplorável ao fazer o rito, e que ainda estava deplorável, apenas um pouco menos arrebentado, como se as feridas estivessem em estado de cicatrização, não tinha noção de que dia era, mas sabia que o ar estava mais frio do que da ultima vez que lembrava.

Enquanto os pensamentos iam e vinham em sua mente ele fitou seu reflexo cadavérico no espelho, quase esboçou um sorriso zombando da própria imagem decadente porém um pensamento lhe rasgou a linha de raciocínio: Quando eu fiz a invocação eu não estava sozinho.